Quatro meses após mudança de gestão, médicos denunciam atraso de pagamentos no Hospital Bom Jesus
A chegada do Instituto Maria Schmitt (IMAS), tinha como objetivo auxiliar na recuperação financeira
RIO NEGRO (PR) – A mudança na gestão do Hospital Bom Jesus, em Rio Negro, realizada em março deste ano com a chegada do Instituto Maria Schmitt (IMAS), tinha como objetivo auxiliar na recuperação financeira e na reestruturação dos serviços da unidade hospitalar. No entanto, quatro meses após a transição, médicos que atuam no hospital relatam que continuam enfrentando atrasos no recebimento de honorários profissionais.
A situação motivou uma denúncia formal junto ao Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), reacendendo o debate sobre a saúde financeira da instituição e expondo divergências entre a mantenedora, a atual administração e os profissionais afetados.
A denúncia foi protocolada com base na Resolução CRM-PR nº 256/2026 e na Resolução CFM nº 2.462/2026, que estabelecem procedimentos para apuração de inadimplência remuneratória envolvendo médicos e preveem medidas administrativas contra instituições responsáveis pelos pagamentos.
Segundo o documento encaminhado ao conselho, profissionais contratados por meio de pessoa jurídica passaram a registrar atrasos ainda no início de 2026. O pagamento referente aos serviços prestados em janeiro não teria sido quitado dentro do prazo previsto em contrato, situação que, conforme a denúncia, se repetiu nos meses seguintes.
O material apresentado ao CRM inclui mensagens encaminhadas aos médicos com cronogramas de pagamento e propostas de parcelamento dos valores pendentes.
Hospital confirma débitos
Procurado pela reportagem, o diretor do Hospital Bom Jesus, Rafael Schroeder, confirmou a existência de pagamentos em atraso aos profissionais médicos.
“Sim”, respondeu ao ser questionado sobre a existência de débitos pendentes.
Segundo ele, não é possível informar com precisão quais competências estão em atraso devido às particularidades dos contratos firmados com cada profissional.
“Com relação às competências é relativo devido aos contratos serem a maioria independente. Não tem como passar com precisão visto a diferença de vencimentos e valores”, afirmou.
Questionado sobre o montante total da dívida, Schroeder informou que os números já foram apresentados à associação mantenedora, mas que não possui autorização para divulgá-los publicamente.
“Esses valores foram repassados à associação, não tenho autorização para divulgação dos mesmos”, declarou.
O diretor também informou que a administração ainda não foi oficialmente notificada sobre a denúncia apresentada ao CRM.
“Estamos aguardando ser oficiado, pois não temos conhecimento de quem está movendo a ação”, disse.
Dívidas anteriores e busca por recuperação
De acordo com Schroeder, a atual gestão assumiu o hospital em meio a um cenário financeiro delicado, já marcado por cobranças judiciais e passivos acumulados.
“Cabe relembrar que desde que o IMAS assumiu, já existiam ações de cobrança em curso”, afirmou.
O diretor atribui as dificuldades financeiras à redução dos atendimentos e à perda de receitas nos últimos anos.
“Não é de hoje que todos sabem a situação financeira que o hospital se encontra há algum tempo, com dívidas e processos”, acrescentou.
Entre os fatores apontados pela administração está o encerramento de convênios com o município.
“Desde que foi cancelado o convênio da Prefeitura o hospital passa por dificuldades, e com o baixo número de atendimentos que vinha realizando, acabou que os recursos de outras esferas também foram diminuindo. Se não tem paciente, não tem recurso”, explicou.
Segundo ele, a recuperação financeira depende agora da habilitação de novos serviços e da celebração de contratos com outras esferas governamentais.
“Estamos aguardando sair o novo CNES do hospital para fechar novos contratos com o Estado e União. Estamos em busca de credenciamento para diversos programas disponíveis tanto estadual quanto federal”, afirmou.
Ainda conforme o diretor, desde o início da gestão do IMAS foram investidos R$ 1.123.518,03 para garantir a continuidade das atividades da unidade.
“Primeiro você atende, mostra que tem capacidade, depois recebe. Então é isso que iremos fazer”, completou.

Prefeitura afirma que não possui débitos
A Prefeitura de Rio Negro contestou a justificativa relacionada a eventuais repasses municipais.
Em nota oficial, a Secretaria Municipal de Planejamento e Coordenação Geral informou que não existem débitos pendentes com o Hospital Bom Jesus.
“A Prefeitura de Rio Negro, através da Secretaria Municipal de Saúde, informa que não existem débitos pendentes ou em atraso com o HBJ, e que todos os convênios, contratos e fomentos foram honrados dentro do prazo estabelecido para pagamento”, destacou o município.
A manifestação contrasta com argumentos apresentados pela direção hospitalar ao justificar as dificuldades financeiras enfrentadas pela instituição.
CRM analisa denúncia
O Conselho Regional de Medicina do Paraná informou que denúncias relacionadas à inadimplência remuneratória são analisadas individualmente, conforme os procedimentos previstos na regulamentação vigente.
“Após o recebimento da denúncia, o CRM-PR realiza a análise dos fatos apresentados e dos documentos encaminhados, com o objetivo de verificar a existência da inadimplência e identificar os responsáveis pela contratação e pagamento dos serviços médicos”, informou o órgão.
Caso a inadimplência seja confirmada, o conselho poderá adotar as medidas previstas na Resolução nº 256/2026.
A norma estabelece que atrasos superiores a 30 dias podem caracterizar grave falta de condições de trabalho para os profissionais da medicina.
O CRM também destacou que, em determinadas situações previstas na regulamentação, médicos podem deixar de assumir novas escalas ou plantões enquanto perdurar a inadimplência.
“A Resolução CRM-PR 256/2026 prevê que, em determinadas situações de inadimplência, o médico poderá deixar de assumir novas escalas ou plantões”, informou.
O órgão confirmou ainda que já recebeu outras comunicações relacionadas ao tema desde a entrada em vigor da norma, mas ressaltou que não comenta casos específicos em razão do sigilo dos procedimentos administrativos.
Enquanto a denúncia segue em análise, o episódio evidencia os desafios enfrentados pelo Hospital Bom Jesus em seu processo de recuperação financeira e reforça a preocupação dos profissionais de saúde quanto à regularidade dos pagamentos e à manutenção dos serviços prestados à população da região.
Fonte: Rio Mafra Mix
Veja a denúncia na íntegra e as resoluções do CRM