Câncer de mama mata 3,8 vezes mais mulheres negras, diz Inca
Embora a frequência de novos casos de tumor mamário seja numericamente superior entre a população branca, o desfecho fatal atinge de maneira desproporcional as pacientes negras. Um levantamento técnico do Instituto Nacional de Câncer (Inca) revelou que a probabilidade de uma mulher negra morrer em decorrência da patologia é quase quatro vezes superior — especificamente 3,8 vezes maior — em relação às mulheres brancas.
Barreiras no rastreamento e diagnósticos tardios
Os dados constam no relatório “Disparidades raciais na incidência do câncer de mama”, divulgado no Rio de Janeiro durante a campanha do Outubro Rosa. De acordo com a publicação, o abismo na sobrevivência é impulsionado por um conjunto de entraves socioeconômicos, condições adversas de vida, estresse crônico e carência de acesso rápido aos serviços de saúde.
Essa dificuldade de assistência faz com que a identificação do tumor ocorra comumente em estágios já comprometidos. Segundo a coordenadora de Prevenção e Vigilância do Inca, Márcia Sarpa, esse descompasso reflete diretamente o cenário clínico: “O diagnóstico da doença em fase avançada é mais frequente entre as mulheres negras (60%) do que entre as mulheres brancas (50%)”.
Predomínio de formas mais agressivas da doença
Além das disparidades estruturais e de fatores associados à ancestralidade, o levantamento aponta particularidades biológicas relevantes. Mulheres negras apresentam maior incidência do câncer de mama triplo-negativo.
Esse subtipo específico é caracterizado por evolução rápida, alta probabilidade de metástase precoce e menor sensibilidade a terapias convencionais, o que torna a abordagem médica consideravelmente mais complexa.
Equidade e ações preventivas
Para conter o avanço dessas estatísticas, a instituição defende que a formulação de diretrizes assistenciais contemple a equidade para nivelar o acesso aos tratamentos e exames preventivos.
O diretor-geral do órgão, Roberto Gil, enfatizou a urgência de agir sobre as origens do problema: “O papel da prevenção é determinante. Se a gente continuar sem olhar o aumento da incidência, estaremos sempre lidando com um problema cada vez maior”.
A entidade ressalta que intervenções no estilo de vida são essenciais, indicando que aproximadamente 17% dos diagnósticos poderiam ser evitados. Entre as medidas profiláticas recomendadas estão o combate ao sobrepeso e à obesidade, a suspensão do consumo de álcool, o estímulo à atividade física rotineira, uma alimentação balanceada e o incentivo ao aleitamento materno.

