Desafios de comida na internet distorcem noção de porção normal
Os vídeos virais de competições gastronômicas e desafios de comida atraem milhões de visualizações nas plataformas digitais, gerando debates sobre o impacto desse tipo de entretenimento na saúde pública e na percepção nutricional do público.
O fascínio pelo excesso nas redes sociais
O apelo visual e o comportamento extremo são os principais responsáveis pelo engajamento massivo nessas exibições. A psicóloga Flavia Marsola aponta que a curiosidade sobre o desfecho e a dinâmica social impulsionam o compartilhamento desses materiais.
“Queremos saber até onde aquilo vai, se a pessoa vai conseguir, qual vai ser o desfecho. Isso já é um gatilho forte. Tem um componente social muito importante também. Nas redes, comportamento extremo chama atenção justamente porque é diferente do nosso dia a dia. Quanto mais absurdo parece o desafio, mais gera comentários e compartilhamentos, o que acaba empurrando mais conteúdo parecido para frente”, analisa a especialista do Hospital Brasília Águas Claras.
Embora assistir a esse material não resulte necessariamente em mudanças imediatas na dieta, a exposição contínua representa um perigo para grupos vulneráveis, como crianças, adolescentes e indivíduos que enfrentam quadros compulsivos.
“Quando vemos repetidamente porções enormes associadas à diversão, competição e sucesso, isso pode ir distorcendo pouco a pouco a nossa percepção do que é uma quantidade normal de comida. O excesso vai parecendo cada vez menos excepcional”, explica a psicóloga.
Apesar disso, Marsola pondera que o conteúdo digital isolado não tem o poder de desencadear um distúrbio alimentar por si só, ressaltando que o transtorno envolve critérios clínicos complexos e não deve ser banalizado.
A rotina de preparação dos atletas da comilança
Para influenciadores especializados, como o brasiliense Ricardo Corbucci, a prática exige planejamento rigoroso, jejuns prolongados e restrição calórica severa para compensar o volume excessivo ingerido durante as gravações.
“Antes dos desafios faço um jejum de aproximadamente 15 a 18 horas, e normalmente após as disputas ele pode chegar até 24 horas”, diz o influencer em entrevista ao veículo.
Nos dias anteriores às disputas, o atleta mantém uma dieta restrita baseada em proteínas magras, vegetais, azeites, frutas e carboidratos simples, além de somar uma rotina intensa de musculação e exercícios cardiorrespiratórios.
O profissional também realiza exames periódicos e conta com monitoramento médico especializado. “Todas essas medidas minimizam, porém, não isentam os riscos. Sempre recomendo que ninguém faça esse tipo de atividade, especialmente com frequência, sem acompanhamento médico”, alerta.
Riscos orgânicos e alertas da nutrição
A ausência de preparo físico adequado para ingerir grandes quantidades de alimentos em curto espaço de tempo pode provocar distensão abdominal, náuseas, refluxo e vômitos. A presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN), Manuela Dolinsky, enfatiza que os limites do corpo não devem ser testados.
“O estômago se expande para receber os alimentos, mas essa capacidade não deve ser interpretada como uma autorização para testar os limites do organismo. A intensidade dos sintomas depende do volume ingerido, da velocidade do consumo e das condições de saúde da pessoa”, alerta a nutricionista.
Em provas cronometradas, os perigos aumentam drasticamente devido à possibilidade de engasgos, obstrução das vias respiratórias e quadros de asfixia. “Isso é uma situação que pode ameaçar a vida do indivíduo”, ressalta Manuela.
Diante desse cenário, especialistas recomendam o respeito aos sinais biológicos de fome e saciedade, alertando para a glamourização de hábitos alimentares nocivos associados a figuras públicas admiradas pelo público jovem.
“Preocupa a possibilidade de esses vídeos tornarem comportamentos de risco mais aceitáveis ou atraentes para reprodução, sobretudo quando envolvem publicidade e personalidades admiradas pelo público jovem”, conclui a presidente do CFN.



