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Protestos na França reúnem 500 mil e geram toque de recolher

Protestos na França reúnem 500 mil e geram toque de recolher

Uma expressiva mobilização popular levou cerca de 500 mil pessoas a marcharem em várias regiões da França no último fim de semana, culminando em confrontos violentos, prejuízos milionários ao comércio e a decretação de toque de recolher na segunda-feira (19) em metrópoles como Paris, Lille e Nice. O clima de tensão também ultrapassou as fronteiras nacionais, motivando passeatas de solidariedade em países como Albânia, Itália e Portugal.

Da reivindicação escolar à insatisfação generalizada

O estopim para a crise começou de forma localizada em setembro, a partir do bloqueio dos acessos a um colégio na Grande Paris. Alunos reivindicavam melhorias estruturais básicas, combate à superlotação em salas de aula e a contratação urgente de docentes. A pauta educacional rapidamente contagiou outras instituições de ensino e agregou categorias do funcionalismo público.

O movimento ganhou contornos mais amplos diante do descontentamento da população com o presidente Emmanuel Macron e com a proposta do Orçamento para 2027, que estabelece o congelamento salarial de servidores. Ao longo das semanas, a insatisfação migrou das salas de aula para as ruas, incorporando queixas severas contra o encarecimento das despesas cotidianas e o sucateamento dos serviços públicos. Durante a escalada dos protestos, duas escolas foram alvo de incêndios, além de veículos públicos e particulares terem sido depredados.

Semelhanças com os Coletes Amarelos

Para o professor e pesquisador do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po Paris, Thomás Zicman de Barros, a dinâmica atual resgata elementos vistos nas mobilizações populares de 2018. Integrantes ligados aos Coletes Amarelos já planejavam manifestações contra a inflação antes mesmo da eclosão da revolta escolar.

“Há uma sensação de perda de poder de compra e esse pessoal falou: ‘A gente precisa ir para a rua contra a vida cara’”, afirma o cientista político.

O especialista ressalta que a ausência de uma chefia formal confere imprevisibilidade às ações, dificultando a contenção policial, além de apresentar níveis mais acentuados de hostilidade física.

“Essas manifestações não são inéditas. Nos Coletes Amarelos, já havia um pouco dessa dinâmica. Mas são difíceis de controlar porque não são organizadas por estruturas centralizadas. Elas têm uma dimensão espontânea, que aqui na França eles chamam de selvagem.”

Vandalismo e prisões em massa nos grandes centros

Os maiores danos materiais foram concentrados em Paris e Marselha. Na capital, boutiques de alto padrão reforçaram suas portas ou suspenderam o atendimento, mas marcas prestigiadas como Dior, Gucci, Ralph Lauren, Rolex e Louis Vuitton tiveram suas fachadas danificadas. Em Marselha, o estabelecimento oficial do clube de futebol Olympique de Marseille foi invadido e saqueado, enquanto em Bordeaux uma unidade das tradicionais Galerias Lafayette foi alvo de vandalismo. Entidades do setor calculam que quase 3 mil pontos de venda sofreram danos.

O aparato de repressão envolveu 60 mil agentes de segurança no sábado, mobilização que o ministro do Interior, Laurent Nuñez, admitiu não ter sido suficiente. O balanço das operações registrou cerca de 2.400 detidos e quase mil policiais feridos em um único dia. Um manifestante faleceu após sofrer uma parada cardíaca durante os atos.

Tensão no Palácio do Eliseu e repercussão política

Em transmissão televisiva no domingo (18), o presidente Emmanuel Macron criticou duramente os excessos nas ruas, declarando que “nada justifica” a violência “desenfreada” e defendendo a separação entre manifestações democráticas e criminalidade. Por sua vez, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu apontou setores da extrema esquerda como articuladores dos tumultos, acusando-os de tentar inflamar “uma profunda agitação no país” de olho nas eleições presidenciais marcadas para 2027.

Informes de inteligência apresentados às autoridades federais indicam suposta participação da legenda França Insubmissa na organização dos atos, alegação que o partido nega enfaticamente. O principal nome da agremiação, Jean-Luc Mélenchon, exigiu que o premiê apresente comprovações das declarações. “Caso contrário, ele deveria se desculpar, ficar em silêncio e parar de atiçar as chamas da agitação”, disse em entrevista.

Na visão de Thomás Zicman de Barros, a polarização do debate público pode levar a lideranças governamentais e conservadoras a priorizarem apenas respostas punitivas, negligenciando a raiz dos protestos. “Ao tratar das manifestações apenas como um caso de polícia, o governo não consegue entender o que está por trás disso, que é uma insatisfação”, afirma o analista.

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