Democratas retomam Congresso dos EUA e impõem revés a Trump
O Partido Democrata consolidou uma expressiva vitória nas urnas ao retomar o controle da Câmara dos Representantes e do Senado. O resultado impõe uma derrota política direta ao presidente Donald Trump na metade de seu mandato, empurrado pelo descontentamento popular com a inflação e com os rumos da política externa da Casa Branca.
Com a apuração das urnas, a oposição alcançou a marca de 54 cadeiras no Senado — superando a margem mínima de 51 assentos necessária para a maioria. Na Câmara, os democratas já asseguravam 228 vagas frente a 139 dos republicanos, ultrapassando a marca regulamentar de 218 deputados para presidir a Casa, com projeções indicando ampliação dessa vantagem com a chegada dos dados da costa oeste.
Avanço histórico em tradicionais redutos republicanos
O avanço da legenda democrata ocorreu em territórios historicamente dominados pelos conservadores. No Texas, estado emblemático do Partido Republicano, os democratas venceram em âmbito estadual pela primeira vez neste século: James Talarico bateu Ken Paxton e se tornou o primeiro democrata eleito para o Senado texano em quase 40 anos, enquanto Gina Hinojosa superou o governador Greg Abbott e assumiu o governo local.
Outras quebras de tabu foram registradas no Kansas, onde a sigla voltou a conquistar uma vaga no Senado após cerca de um século, e em Ohio, onde o senador Sherrod Brown obteve a reeleição e a médica Amy Acton derrotou Vivek Ramaswamy, se tornando a primeira governadora mulher do estado. Na Carolina do Sul, a pediatra Annie Andrews desbancou Darline Graham e encerrou um jejum democrata no Senado local que persistia desde 1998. Os democratas também garantiram postos estratégicos em Iowa com a vitória de Josh Turek e na Carolina do Norte com a eleição de Roy Cooper.
Marcos inéditos de representatividade
As eleições também consagraram marcos de representação demográfica e de minorias nos Estados Unidos em diferentes esferas:
- Geórgia: Keisha Lance Bottoms foi eleita governadora, tornando-se a primeira mulher negra a governar um estado em toda a história dos Estados Unidos. O democrata Jon Ossoff também garantiu a reeleição ao Senado pelo estado.
- Michigan: O médico sanitarista Abdul El-Sayed, de 42 anos, foi eleito e tornou-se o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira no Senado norte-americano.
- New Hampshire: Chris Pappas, de 46 anos, foi eleito como o primeiro homem abertamente gay da história do Senado dos Estados Unidos.
- Flórida: O brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet, de 40 anos, conquistou uma vaga de deputado estadual pelo Distrito 42, tornando-se o primeiro cidadão nascido no Brasil a integrar o Legislativo da Flórida.
Custo de vida derruba aprovação de Trump
Pesquisas de boca de urna apontaram uma aprovação de apenas 38% para a gestão de Donald Trump, o patamar mais fraco já registrado para um presidente em eleições de meio de mandato. Cerca de três quartos dos votantes expressaram contrariedade com a condução do país, com ênfase na alta do custo de vida — a inflação acumulava avanço de 3,7% em setembro — e no desgaste gerado pela escalada do conflito militar com o Irã.
Na noite do pleito, o presidente afirmou estar “absolutamente disposto” a reconhecer as urnas e sinalizou abertura ao diálogo com os adversários. “Estamos, sabe, ansiosos para trabalhar com eles”, afirmou ele em uma entrevista por telefone ao The New York Times. “Provavelmente chegaremos a um entendimento.”
Apesar do revés de nomes que contaram com seu apoio formal, o mandatário defendeu sua trajetória e qualificou a ação no Oriente Médio como uma “decisão muito sensata”. Ao ser questionado sobre o desempenho do partido, minimizou o resultado e declarou: “Considero este o período de dois anos mais bem-sucedido na história de qualquer presidente”.
Com o Congresso sob liderança democrata, a gestão republicana enfrentará amplas restrições orçamentárias, maior vigilância por meio de comissões parlamentares de inquérito e freios legislativos em suas propostas para comércio exterior e imigração.

