Baixo desenvolvimento de Três Barras e Papanduva agrava crise do tarifaço, aponta Fiesc
As cidades de Três Barras e Papanduva estão em um ranking de 32 cidades que devem sentir mais os efeitos do tarifaço imposto pelo presidente estadunidense, Donald Trump de 50% sobre as exportações. O que torna a situação desses Municípios mais dramática é que eles tem baixo nível de desenvolvimento municipal e abrigam grandes madeireiras como é o caso da Brasnile e FCOmp em Três Barras.

“Na região Norte de Santa Catarina, encontramos municípios que enfrentam desafios significativos, especialmente aqueles que dependem de setores mais vulneráveis. Esse cenário é similar ao que se observa na Serra, onde a falta de diversificação econômica torna essas localidades mais suscetíveis a crises”, diz relatório elaborado pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), responsável por montar o ranking.
Em muitos desses municípios, como Capão Alto, Itá, Três Barras, Passos Maia, Papanduva e Ponte Alta, a forte especialização em produção de madeira, móveis e agroindústria os expõe diretamente ao mercado externo. “O ranking revela que esses Municípios, além de serem severamente impactados, têm um desenvolvimento considerado ‘Baixo’. Essa combinação resulta em uma vulnerabilidade extrema, com pouca capacidade de adaptação, o que torna o tarifaço uma ameaça real à estabilidade econômica e social dessas comunidades”, diz o relatório da Fiesc.
A situação se agrava em localidades como Santa Cecília, Sangão e Timbó Grande, que, além de sofrerem impactos críticos, têm um nível de desenvolvimento classificado como “Precário”. “Aqui, o tarifaço não só provoca um choque econômico severo, mas também intensifica fragilidades já existentes, criando um cenário complicado para a recuperação e aprofundando problemas socioeconômicos”, alerta a Fiesc.
Por outro lado, há municípios dentro do mesmo “cinturão” que, apesar de também estarem expostos ao tarifaço, como Salete, Caçador, Rio Negrinho, São Bento do Sul e Presidente Getúlio, apresentam um nível de desenvolvimento “Alto”. Isso indica que eles possuem uma resiliência maior, seja por uma diversificação produtiva ou por um desenvolvimento social mais robusto, o que lhes confere uma capacidade superior de se adaptar ou resistir a choques econômicos.
MAIS SEGUROS
O relatório apresenta um segundo grupo, no qual estão municípios que fazem parte de polos industriais altamente especializados, como Joinville, Jaraguá do Sul, Pomerode e Cocal do Sul, todos com nível de desenvolvimento “Alto”. Mesmo Lages, que é classificada como “Média”, se destaca. “Esses centros enfrentam impactos críticos em setores específicos devido à sua vocação para exportação, mas a força de seu desenvolvimento permite uma resposta mais eficaz e uma melhor adaptação às crises, em comparação com os municípios menos desenvolvidos da região”, diz o relatório.
A análise do litoral também mostra que as áreas costeiras tendem a ser mais resilientes, com os impactos mais significativos concentrados nos municípios portuários. No entanto, é importante notar que o indicador de exportações por habitante pode exagerar o impacto nessas áreas. Isso acontece porque as empresas que atuam no comércio exterior (as tradings) geralmente se localizam em portos, enquanto a produção que realmente sente os efeitos do tarifaço ocorre em outras regiões. “Em particular, vale destacar as pequenas e médias madeireiras que utilizam essas tradings como seus canais de comércio exterior, muitas delas situadas exatamente nos pequenos e menos desenvolvidos municípios que compõem a espinha dorsal do tarifaço”, pontua a Fiesc.
Para a Federação, “o nível de desenvolvimento municipal se mostra como um fator crucial que, junto à especialização econômica, determina a real magnitude e as consequências de um tarifaço em Santa Catarina. Ele atua como um amplificador dos efeitos negativos em municípios menos desenvolvidos e como um atenuador para aqueles com estruturas mais robustas. Essa compreensão se torna vital para o planejamento de políticas públicas e para o desenvolvimento de estratégias eficazes de recuperação e diversificação regional”.
Podemos, efetivamente, chegar ao cenário de colapso?*
Sim, uma crise aguda ou estagnação prolongada nos Estados Unidos, marcada pela combinação de inflação persistente, tarifas elevadas e juros altos, pode rapidamente tornar subestimada uma perda de apenas 30% das exportações. De fato, esse não é um risco baixo, é esperado que as tarifas sobre produtos importados pressionem os preços internos e dificultem o controle inflacionário, levando o Federal Reserve a manter as taxas de referência em níveis elevados por longo período. Tal contexto restringiria fortemente o crédito.
O setor imobiliário dos EUA, decisivo para as exportações de SC, é altamente sensível a essa conjuntura, pois depende do crédito habitacional e do refinanciamento de hipotecas para sustentar a construção e a renovação de residências. Quando os juros estão altos, esse mecanismo perde força: o custo do financiamento se eleva, famílias adiam investimentos e construtoras reduzem lançamentos. Isso pode reduzir drasticamente a demanda por portas, caixilhos, compensados e outros produtos de madeira e móveis exportados pela indústria catarinense para os EUA.
Em um cenário extremo de perda de 70% das exportações, para um período de pouco mais de 1 ano, estimou-se uma queda de 44 mil postos de trabalho, sendo a maior perda no Vale do Itajaí (25,7%), seguidos pela mesorregião Norte (24,1%), Oeste (19,8%), Sul catarinense (11,4%), Grande Florianópolis (10,1%) e Serrana (8,9%). Importante é que cerca de 12 mil postos de trabalho seriam perdidos apenas nos setores de móveis e madeira.
Nesse caso a distribuição regional muda significativamente, com Oeste Catarinense liderando com 3,3 mil demissões, seguidos pelo Vale do Itajaí e o Norte Catarinense, ambos com perdas em torno de 2,6 mil empregos cada. Para a mesorregião Serrana estima-se queda de aproximadamente 2,2 mil postos do setor de móveis e madeira nesse cenário, enquanto o Sul Catarinense perderia cerca de 1,3 mil empregos e, finalmente, a Grande Florianópolis teria um impacto mais limitado, estimado em 400 demissões.
A mesorregião Norte demonstra impactos ligeiramente menores. Isso se deve à presença de centros industriais mais diversificados, como Joinville e Jaraguá do Sul, que servem como “amortecimento” do impacto à mesorregião como um todo.
Conteúdo: Fiesc

