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Diplomatas cogitam aposentadoria após avanço de Flávio Bolsonaro

Diplomatas cogitam aposentadoria após avanço de Flávio Bolsonaro

O resultado do primeiro turno da eleição presidencial, que colocou Flávio Bolsonaro à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, provocou um forte abalo nos corredores do Itamaraty. Diante do risco de reviver o modelo de política externa adotado no mandato de Jair Bolsonaro, integrantes do primeiro escalão do Ministério das Relações Exteriores já avaliam antecipar suas aposentadorias para não ter de representar o país em uma eventual gestão do senador.

Hostilidades e ameaças de remanejamento punitivo

O mal-estar entre os diplomatas se intensificou após declarações duras do ex-deputado Eduardo Bolsonaro contra servidores que manifestaram apoio à candidatura petista. O parlamentar prometeu promover uma “faxina” na estrutura do ministério, ampliando o temor de perseguições internas.

Um dos episódios mais emblemáticos atingiu a embaixadora Vanessa Dolce de Faria, Alta Representante para Temas de Gênero do órgão, que participou de atos pró-Lula com vestimentas da campanha. Nas redes sociais, Eduardo reagiu ao afirmar que, com a eleição de Abelardo de la Espriella na Colômbia — alinhado à direita e próximo a Donald Trump —, uma ida de Vanessa para o país vizinho estaria “em total descompasso com nossa região”. O ex-deputado então sugeriu transferi-la para um posto isolado: “Creio que esta guerreira, Alta Representante Para Temas de Gênero, tão sedenta por democracia deveria ir de missão ao Zimbábue, para que lá floresça seu sonho de soberania. O que acham?”.

Embaixadas em Washington, Madri e Caracas sob pressão

A representação brasileira nos Estados Unidos também está sob fogo cruzado. Aos 72 anos, a embaixadora em Washington, Maria Luiza Viotti, figura entre as diplomatas que podem requerer aposentadoria precoce. As queixas do grupo bolsonarista contra ela surgiram durante visita de Flávio Bolsonaro à capital americana em maio, quando um pedido feito em cima da hora para a cessão de espaço para uma coletiva foi negado.

Flávio criticou o episódio apontando o que chamou de “atitude mesquinha” e “aparelhamento ideológico”. O influenciador Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo nos EUA, referiu-se à diplomata como “embaixadora-zumbi”, alegando que o posto operava como “órgão de partido”, e afirmou que “em janeiro vai ter muita gente transferida para a embaixada da ‘puta que o pariu’”.

Outros nomes relevantes da diplomacia enfrentam resistência semelhante:

  • Orlando Leite Ribeiro, indicado para a embaixada em Madri, passou a ser rejeitado pela ala bolsonarista por prestar assistência à mudança de Fábio Luís Lula da Silva e da lobista Roberta Luchsinger para a Espanha.
  • Guilherme Patriota, indicado para o posto em Caracas durante o governo interino de Delcy Rodríguez na Venezuela, corre o risco de ter a designação barrada antes da sabatina no Senado devido ao alinhamento do clã Bolsonaro com os interesses de Donald Trump na região.

Fuga de funções políticas e debandada de veteranos

Ao menos três secretários do Ministério das Relações Exteriores já consideram encerrar a carreira caso Flávio Bolsonaro confirme a vitória nas urnas. Para evitar ordens com as quais não concordam, há quem estude pedir lotação em consulados no exterior, cargos de perfil técnico e administrativo habitualmente considerados de menor peso político, mas distantes das diretrizes diretas de Brasília.

A perspectiva de aposentadoria ganha força entre embaixadores seniores, especialmente aqueles com idade próxima ao teto constitucional de 75 anos e trajetórias associadas à política externa tradicional ou a governos anteriores, como os ex-chanceleres Antonio Patriota (atualmente em Londres) e Luiz Alberto Figueiredo (lotado em Madri). Diplomatas dedicados a pautas desidratadas na gestão de Jair Bolsonaro — como direitos humanos, meio ambiente, gênero e fóruns multilaterais — veem a possível vitória da oposição como uma barreira definitiva de crescimento profissional.

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