Projeto em SC quer ouvir feminicidas para prevenir feminicídio
Um projeto sobre feminicídio em SC vai ouvir, neste ano, homens condenados por esse crime para tentar identificar comportamentos e atitudes ligados à violência, em uma iniciativa do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, da Universidade Federal de Santa Catarina e da Emory University. A proposta nasce depois que as estatísticas do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 revelam que, para cada mulher morta por feminicídio, outras 3 quase foram mortas no país.
Ferramenta quer medir risco sem tratar probabilidade como certeza
O trabalho ainda está em fase embrionária no Estado. A ideia é começar com um estudo piloto que deve ouvir entre 10 e 15 homens condenados por feminicídio e, depois, validar o instrumento com cerca de 400 homens sentenciados por violência doméstica e familiar em Santa Catarina, em diferentes graus de gravidade.
A professora Dabney Evans, da Emory University, participa da cooperação científica e internacional. Ela é reconhecida por pesquisas sobre violência de gênero, direitos humanos e saúde pública. Antes desse projeto, integrou uma pesquisa que entrevistou 160 feminicidas em 11 países.
Michelle de Souza Gomes Hugill, doutora em Psicologia, pesquisadora sobre relações de gênero, servidora do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e cedida ao Conselho Nacional de Justiça, resume o objetivo do questionário: “Buscamos tentar com esse instrumento identificar comportamentos, atitudes que tenham mais chances de que esse homem cometa um feminicídio ou não. Claro que o instrumento é uma probabilidade, não quer dizer porque tem risco que aquele homem vai cometer, é só ter mais chances”.
Ela também defende que a discussão vá além da lei. “É muito difícil mudar a violência só com a lei. Ela é importante, senão a gente vai ter uma impunidade. Mas ela sozinha não muda. Precisamos de outras formas, porque o que estamos fazendo não está resolvendo. A nossa tentativa com essa nova ferramenta é trazer a questão para discussão. O que passa na cabeça desse homem que faz ele querer matar uma mulher? Qual é o gatilho que leva ele a fazer aquilo? Aí, a partir disso, o que a gente tem que fazer para impedir que essa violência escale?”.
Os números de SC e o caso que mantém a vítima em alerta
O Mapa do Feminicídio feito pelo Ministério Público de Santa Catarina mostra que 66,7% dos homens são condenados. Entre os condenados, 75,3% recebem penas entre 15 e 30 anos de prisão; em 13,3% dos casos, as condenações passam dos 30 anos; e 13,4% dos assassinos tiram a própria vida logo após o feminicídio.
Esse cenário ajuda a explicar a preocupação da pesquisadora com quem sobrevive ao ataque. Moacir Ferreira da Silva recebeu pena de nove anos por tentativa de feminicídio. Ele atirou contra a mulher várias vezes, mas a arma falhou em todas elas. Depois pegou uma machadinha para golpear a vítima. A filha do casal, então com 11 anos, também se feriu ao tentar defender a mãe.
Moacir ficou pouco mais de um ano preso e conseguiu responder ao processo em liberdade. O crime ocorreu em maio de 2023 e a sentença definitiva foi publicada no último dia 13 de agosto, dia do julgamento. Ele estava no tribunal, saiu antes do fim da sessão e agora é considerado foragido. O homem é alvo de um dos 280 mandados de prisão em aberto em Santa Catarina por crimes de violência doméstica.
“Desde quando ele foi solto, não consigo dormir direito, nem trabalhar. Sempre com medo. Ouvi um comentário que ele andou falando que tem que resolver uma coisa primeiro, para depois se entregar. E se tiver planejando fazer mais algum mal para mim? É uma situação de terror”, desabafa a sobrevivente.
As informações são da NSC Total.

