Ansiedade eleitoral: termo psicose política gera alerta médico
Checar pesquisas de intenção de voto sem parar, entrar em discussões acaloradas na internet e revisitar as redes sociais diversas vezes ao dia em busca de novidades sobre as eleições são hábitos comuns na reta final do pleito. Contudo, essa vigilância contínua pode sobrecarregar a mente e comprometer gravemente a rotina do eleitor.
Para definir essa tensão constante, a expressão “psicose política” passou a circular amplamente na internet. Apesar de popular, a definição médica para esse quadro é bem diferente do nervosismo comum das disputas nas urnas.
O uso incorreto do termo psicose
De acordo com a psicóloga e palestrante Handreza Oliveira, especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC) e análise do comportamento aplicada (ABA), o estresse gerado pelo ambiente eleitoral não deve ser classificado como psicose. A profissional alerta para o risco de banalizar diagnósticos psiquiátricos severos.
A expressão ‘psicose política’ é inadequada porque usa um conceito clínico para tentar explicar reações de ansiedade, estresse ou simples paixão política, afirma.
Handreza pontua que a psicose clínica engloba desordens psíquicas profundas, caracterizadas por alucinações, delírios e perda do contato com a realidade. Logo, a defesa fervorosa de um candidato ou o alto consumo de telejornais e redes sociais não configuram, por si só, um diagnóstico psicótico.
Diferença entre engajamento cívico e ansiedade
Ter interesse pela disputa e buscar informação é saudável, mas o alerta se acende quando o comportamento passa a gerar prejuízos na concentração, no descanso e no sono. Muitas vezes, a busca frenética por atualizações não agrega novos conhecimentos e serve apenas para alimentar a angústia.
A diferença não está necessariamente na quantidade de interesse político, mas na maneira como esse interesse afeta a vida cotidiana e seus relacionamentos, ressalta a psicóloga.
A especialista também destaca que o que muitos chamam de hiperfoco pode ser, na verdade, ruminação mental. Trata-se do ato de repassar continuamente as mesmas preocupações e rever notícias e debates de forma obsessiva para aplacar a incerteza do resultado.
Por que os ânimos se exaltam nas discussões?
A postura combativa em debates familiares ou virtuais ocorre porque a ideologia está ligada a valores profundos da personalidade. Segundo a neuropsicóloga Priscila Patrícia, um contraponto a uma ideia preferida costuma ser sentido como uma afronta à própria individualidade.
Assim, tendemos a dar mais credibilidade às notícias que confirmam nossas opiniões e a questionar as que são contrárias a elas, explica.
Conforme Handreza, quando essa dinâmica descamba para a raiva e a desconfiança em relação ao opositor, surge a polarização afetiva. Nesse estágio, o debate deixa as propostas em segundo plano e se volta a ataques morais ao adversário. Além disso, testemunhar brigas nas redes, mesmo passivamente, é suficiente para elevar os índices de irritação.
Quando percebermos que a conversa está ficando agressiva, podemos mudar de assunto ou interrompê-la, orienta Priscila.
Estratégias para proteger o equilíbrio emocional
Para acompanhar o momento cívico sem adoecer, Priscila recomenda estipular uma rotina consciente de contato com o noticiário:
- Definir horários para o noticiário: reservar momentos específicos do dia para ver atualizações, evitando a repetição desnecessária.
- Escolher fontes confiáveis: checar a veracidade de conteúdos antes de repassar, diminuindo o impacto da desinformação.
- Reduzir as interrupções: silenciar notificações e grupos virtuais geradores de estresse.
- Estabelecer limites nas conversas: cortar diálogos que descambem para hostilidade ou falta de respeito.
- Manter outras atividades: preservar compromissos profissionais, noites de sono, lazer e a convivência interpessoal.
Priscila salienta ainda que o distanciamento momentâneo das telas não significa descuido com o futuro coletivo.
Reduzir o acompanhamento das eleições não significa ser omisso ou deixar de se importar com a sociedade, mas encontrar um equilíbrio entre se manter informado e preservar a própria saúde emocional, afirma.
Sinais de que é hora de buscar apoio psicológico
A busca por atendimento especializado torna-se indispensável quando a angústia não passa e a rotina é severamente impactada. Insônia, conflitos interpessoais frequentes e a incapacidade de largar as redes sociais são fortes indicativos de necessidade de intervenção terapêutica.
Na psicoterapia, podem ser utilizadas estratégias da terapia cognitivo-comportamental (TCC) para identificar pensamentos que aumentam a ansiedade, avaliar interpretações catastróficas, desenvolver tolerância à incerteza e modificar comportamentos de checagem que mantêm o sofrimento, explica Handreza.
Caso surjam sinais como pensamentos profundamente desorganizados, posturas extremistas rígidas, alucinações e delírios, a assistência profissional imediata é mandatória, uma vez que tais sintomas extrapolam completamente as preocupações eleitorais cotidianas.
