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Raio-X da Política

Raio-X da Política

FEZ M…

O deputado federal Zé Trovão (PL) foi a um podcast em São Bento do Sul e conseguiu a proeza de transformar uma agenda política em um mutirão de desgaste pessoal. Em vez de falar de mandato, recurso ou projeto, preferiu fazer o que sabe com desenvoltura: falar m… e falar alto. Sobrou palavrão, faltou noção. O alvo da artilharia verbal foi o vice-prefeito Dr. Tirso Hummelgen (União Brasil), atacado com grosseria e baixaria de fazer corar até mesa de bar em fim de expediente.

ATIROU NO PRÓPRIO PÉ

Zé Trovão foi ao podcast querendo posar de valente e saiu parecendo alguém que confundiu mandato com licença para passar vergonha em público. Quis lacrar, mas derreteu. Em vez de ampliar apoio, abriu uma avenida para a rejeição. A cada frase torta, a cada palavrão desnecessário, o deputado ia trocando futuros voto por constrangimento.

BATEU EM QUEM TEM HISTÓRIA

O detalhe que torna tudo mais desastroso é que Zé Trovão resolveu atacar justamente Dr. Tirso, nome conhecido, respeitado e com trajetória consolidada em São Bento do Sul. Tirso não é figurante de chapa, nem personagem de ocasião. É liderança com serviço prestado e peso político real. O deputado entrou em campo sem conhecer o adversário ou pior, achando que podia desrespeitá-lo sem pagar a conta.

FOI DE PONTA

Até poucos dias atrás, havia quem apostasse em boa votação de Zé Trovão na cidade. Depois do podcast, a conversa mudou de tom. O deputado conseguiu transformar um espaço de visibilidade em um enterro político ao vivo. Foi de ponta, sem freio, sem filtro e sem um cristão por perto para dizer o óbvio: “deputado, pare de cavar”.

SILÊNCIO DE VELÓRIO

Tão barulhenta quanto a fala do deputado foi a mudez de quem estava ao redor. O prefeito Tomazini e o vereador Marcelo Quost (PL), ambos conhecedores da importância de Tirso para o município, assistiram à cena em silêncio absoluto. Nem um aparte, nem um freio, nem um gesto de desconforto minimamente público. Em política, silêncio também faz discurso e, desta vez, fez um bem constrangedor.

OMISSÃO TAMBÉM DESGASTA

Quando um deputado desce o sarrafo em uma liderança da cidade e quem está ao lado opta pelo modo paisagem, a conta não fica só para quem falou demais. Fica também para quem fingiu que não ouviu. No fim, Zé Trovão saiu mal pelo ataque e seus companheiros de cena não saíram exatamente bem pela ausência de reação.

A RESPOSTA VEIO

Se o deputado imaginava aplausos, recebeu uma avalanche de repúdio. Um dos primeiros a sair em defesa de Dr. Tirso foi o presidente da Câmara, Gilmar Pollum (PL), que usou as redes sociais para condenar o ataque. Depois vieram a vereadora Cátia Friedrich (PSD), a pré-candidata a deputada federal Terezinha Dybas (PSD), o pré-candidato a deputado federal Dr. Elói, Geraldo Weihermann (União Brasil), Jaciara Machuga (PT), o presidente estadual do União Brasil Fábio Schiochet, o presidente municipal José Márcio de Oliveira, além de lideranças, moradores a filha de Tirso e veículos de comunicação.

CONSEGUIU O IMPOSSÍVEL

Zé Trovão fez algo raro na política: uniu gente de vários partidos, correntes e grupos em torno de uma mesma conclusão ele passou do ponto. Em vez de enfraquecer Tirso, fortaleceu o vice-prefeito politicamente. Em vez de se impor, se complicou. Em vez de sair maior, saiu menor.

ORELHA QUENTE

A sessão da Câmara desta terça-feira, dia 7, promete. E promete muito. O ambiente é de irritação, cobrança e recado atravessado. Se o tom adotado por Gilmar Pollum nas redes for um aperitivo, o prato principal deve vir bem temperado no plenário. A tendência é de que o nome de Zé Trovão seja lembrado mais de uma vez — e não em tom de homenagem.

EMENDA NÃO COMPRA RESPEITO

Nem adianta recorrer ao álbum de emendas e recursos para tentar amenizar o estrago. Recurso para município é obrigação de parlamentar, não passe livre para desrespeitar liderança local em podcast. Emenda ajuda obra, ajuda entidade, ajuda gestão. Mas não limpa fala grosseira, não apaga vídeo ruim e não recompõe imagem esfarelada por arrogância.

BOGO NO RADAR

O vereador Joelmir Bogo (União Brasil) deve ser um dos nomes mais observados na sessão. Em conversa com a coluna, preferiu não se manifestar antes de falar com o vice-prefeito. Fez certo. Primeiro ouve, depois fala — um método simples, mas aparentemente revolucionário para certos parlamentares. A expectativa é de um discurso duro, firme e com endereço certo, sem precisar descer ao nível do deputado federal.

CABOS ELEITORAIS EM PÂNICO

Se já não era fácil pedir voto, agora ficou pior. Depois do estrago, os cabos eleitorais de Zé Trovão em São Bento do Sul vão precisar de paciência, saliva e um estoque generoso de desculpas. Terão de explicar o inexplicável, justificar o injustificável e tentar convencer o eleitor de que o vídeo não mostra exatamente aquilo que todo mundo viu.

CENTRÃO, ESQUERDA… OU A CIDADE?

Como se o desgaste já não bastasse, Zé Trovão ainda tentou embaralhar o enredo nas redes sociais ao dizer que sofreu um grande ataque do centrão e da esquerda em São Bento do Sul. Tentou vestir o figurino de perseguido político, como se estivesse no meio de uma conspiração ideológica cuidadosamente montada para abatê-lo. Só que a versão não fecha com os fatos. O que veio depois da fala desastrosa não teve cara de complô partidário. Teve cara de reação legítima. Reação de gente trabalhadora, de pessoas de caráter, de quem conhece a história da cidade e não engole desrespeito travestido de coragem. Zé Trovão pode até tentar vender a tese de que apanhou de adversários ideológicos. O problema é que, desta vez, a bordoada veio muito mais da indignação de São Bento do Sul do que de qualquer cartilha partidária.

ANDAR NA MACIOTA

A ordem para quem vai defender o deputado daqui para frente deve ser uma só: pisar leve. Muito leve. Porque o eleitor da cidade conhece suas lideranças, sabe separar firmeza de grosseria e não costuma aplaudir quem chega de fora distribuindo palavrão e desrespeito como se isso fosse demonstração de coragem.

RESCALDO

No fim, Zé Trovão foi a São Bento do Sul para posar de forte e saiu com ares de problema político ambulante. Quis ser trovão, mas entregou só barulho e estrago. E, na política, há um detalhe cruel: às vezes o sujeito não é derrotado pelo adversário. É derrotado pela própria boca.

João Vianna

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