Morte de passageiro em BRT marca alta da violência na zona oeste do Rio
Um gerente de farmácia de 53 anos foi morto a tiros dentro de um ônibus do sistema BRT durante uma operação policial em Jacarepaguá, na zona sudoeste da capital fluminense. O trágico episódio ocorre no momento em que a região se consolida no topo do ranking estadual de mortes violentas e letalidade decorrente de intervenção policial, impulsionada por conflitos armados entre facções rivais e grupos paramilitares.
Avanço territorial e estatísticas alarmantes
De acordo com levantamento do Instituto de Segurança Pública, a área coberta pelo 18º Batalhão da Polícia Militar — que engloba bairros como Taquara, Praça Seca, Rio das Pedras e Jacarepaguá — contabilizou 177 mortes violentas entre janeiro e agosto deste ano. O patamar representa um acréscimo de 58% em comparação ao mesmo intervalo do ano anterior, configurando a maior alta em todo o território fluminense, enquanto a média do restante do estado apresentou retração.
Com esses números, a região saltou da sétima posição para o primeiro lugar geral no índice de letalidade violenta. O crescimento foi impulsionado sobretudo pelos homicídios dolosos, que dispararam 69%, e pelas mortes provocadas por agentes de segurança, que cresceram 36% na localidade, contrariando a tendência de queda observada no restante do território fluminense.
Posicionamento das autoridades de segurança
A Polícia Militar informou que monitora as quadrilhas envolvidas nos confrontos por meio da Subsecretaria de Inteligência para subsidiar ações conjuntas. A corporação destacou ainda que mantém companhias destacadas e bases avançadas do Batalhão de Operações Policiais Especiais em áreas estratégicas para conter o avanço criminoso.
Por sua vez, a Polícia Civil declarou manter “investigações contínuas sobre a atuação de grupos criminosos e possíveis alianças entre organizações, incluindo disputas territoriais, fornecimento de armas e apoio logístico”.
A corporação pontuou que “o trabalho busca alcançar toda a cadeia criminosa, identificando executores, articuladores, lideranças e demais integrantes das estruturas responsáveis pelas atividades criminosas”, acrescentando que “não há necessidade de reforço do efetivo”.
Análise acadêmica e dinâmica da disputa
Especialistas apontam que o acirramento na zona oeste está ligado à expansão do Comando Vermelho em direção aos territórios anteriormente dominados por milícias, processo que ganhou força durante o período da pandemia.
Para a socióloga Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense, a escalada nos índices não causa surpresa. “O aumento de operações e da letalidade não é surpreendente”, avaliou.
Grillo ressalta que a atuação policial apresenta assimetrias geográficas. “Além disso, é importante notar que nossas pesquisas apontam, há muito tempo, que as regiões controladas pelo CV são mais submetidas a operações do que as de milícia. Há um direcionamento”, afirmou. Representantes da corporação militar rebatem, sustentando que o planejamento das diligências ocorre com base na mancha criminal.
Dinâmica da operação que resultou em morte
O falecimento do passageiro ocorreu quando o coletivo trafegava pelo corredor Transolímpico e foi atingido por um disparo na região abdominal. A diligência policial teve como foco localizar suspeitos envolvidos em um homicídio anterior na comunidade Asa Branca. Segundo registros de inteligência, criminosos da comunidade Dois Irmãos tentavam invadir a região dominada por uma facção rival.
Durante a ação, houve troca de tiros e os agentes relataram que a resposta ocorreu “de forma técnica, moderada e proporcional”. Ao longo da intervenção, dois suspeitos foram detidos com fuzis, artefatos explosivos, equipamentos de comunicação e veículos roubados. Os registros oficiais apontam que a morte do passageiro só chegou ao conhecimento das equipes policiais após a conclusão da segunda prisão.


