Cigarro paga menos imposto do que bateria para energia limpa no Brasil
No Brasil, a carga tributária sobre um maço de cigarros atinge 83%, enquanto um casaco de pele paga 81%. Surpreendentemente, as baterias responsáveis por armazenar energia limpa e assegurar a estabilidade do sistema elétrico sofrem uma tributação ainda maior, de 84%. O país acaba taxando como vício ou artigo supérfluo um item que já é considerado infraestrutura básica globalmente e que tem potencial para baratear a conta de luz dos brasileiros.
O peso da tributação na transição energética
Essa inversão de prioridades ganha ainda mais relevância com a proximidade das eleições e a frequência de eventos climáticos extremos. Questões ligadas ao setor elétrico impactam diretamente a segurança energética e a competitividade da indústria nacional.
O país dispõe de vantagens competitivas expressivas para assumir a liderança global nessa área, destacando-se pela incidência solar privilegiada e por uma matriz elétrica predominantemente limpa. Impulsionada pela expansão solar — hoje a segunda maior fonte da matriz —, a última década registrou a injeção de mais de R$ 320 bilhões no setor.
Desafios na infraestrutura e o papel do armazenamento
Contudo, a velocidade do crescimento superou o planejamento da infraestrutura. O sistema enfrenta cortes na geração renovável, fluxo invertido nas redes e forte pressão tarifária, resultando no desperdício de energia barata enquanto o consumidor lida com reajustes acima da inflação.
O armazenamento por meio de baterias surge como solução direta para esse cenário. Esses dispositivos guardam o excedente gerado nos horários de pico solar ou eólico para disponibilizá-lo quando a demanda aumenta, garantindo estabilidade, cortando desperdícios sistêmicos e reduzindo o uso de usinas termelétricas fósseis. Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que o setor de armazenamento tem capacidade de captar mais de R$ 200 bilhões em aportes nos próximos dez anos.
Obstáculos regulatórios e o futuro do setor
O principal entrave para esse avanço reside na política de impostos. Ajustar a tributação não significa conceder benefícios fiscais, mas sim assegurar igualdade de condições para as baterias em comparação a outras tecnologias elétricas. Sem essa correção, a população continuará arcando com custos elevados e riscos operacionais desnecessários.
Além disso, a próxima gestão precisará barrar retrocessos regulatórios. A inserção constante de “jabutis” em propostas legislativas para beneficiar combustíveis fósseis encarece a eletricidade e sinaliza ao mercado um caminho oposto ao adotado internacionalmente.
A modernização da matriz demanda que a transição energética funcione como política de Estado, pautada por previsibilidade regulatória, planejamento e foco no longo prazo. Fica o questionamento para os concorrentes aos cargos públicos: por que o Brasil ainda cobra mais imposto da bateria do que do cigarro? Quem tiver a melhor resposta estará mais preparado para decidir o futuro energético do País.


