PF investiga suposta tentativa de fuga de Flávio Bolsonaro pela Argentina; governo vizinho e defesa negam saída do país
Corporação apura relatos sobre aeronave retida em Puerto Iguazú após ministro Alexandre de Moraes determinar retenção de passaportes; aliados afirmam que senador permanece no Brasil.
BRASÍLIA — A Polícia Federal abriu apuração conjunta com autoridades da Argentina para checar informações sobre uma suposta tentativa de fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos com escala no país vizinho. Os relatos de uma rota de evasão surgiram após a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de apreensão dos passaportes do parlamentar e proibição expressa de deixar o território nacional.
A interlocutores e à imprensa, a campanha do parlamentar negou qualquer tentativa de saída do Brasil. O coordenador-geral da campanha, Rogério Marinho, declarou ao portal Metrópoles que Flávio não deixou o país. Oficialmente, o governo argentino e os órgãos de controle migratório de ambos os países também afirmam que não há registro de entrada ou trânsito do senador pelas aduanas e aeroportos locais.
A apuração e os passos em Puerto Iguazú
As suspeitas ganharam repercussão a partir de reportagem veiculada pelo portal argentino Infobae, segundo a qual Flávio teria cruzado a fronteira terrestre com o documento de identidade com destino a Puerto Iguazú, na província de Misiones. A partir da cidade argentina, o parlamentar embarcaria rumo aos Estados Unidos a bordo de um jato executivo Gulfstream G400, prefixo LV-JQW, operado pela empresa Baires Fly S.A.
De acordo com apurações citadas pelo jornal argentino La Nación, a aeronave decolou de Buenos Aires e pousou em Puerto Iguazú às 23h45 da segunda-feira (26), conforme dados da plataforma de monitoramento FlightRadar. Havia a previsão de um voo com partida às 2h com destino aos EUA, para o qual a operadora teria solicitado liberação alfandegária e migratória para quatro passageiros e três tripulantes.
Fontes da Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA) da Argentina relataram ao periódico que a decolagem acabou cancelada porque um dos passageiros não se apresentou para o embarque. A polícia local de Misiones confirmou que o jato executivo permanece retido no pátio do aeroporto e que os tripulantes são cidadãos argentinos. Contudo, a administração aeroportuária e a polícia informaram que nenhum plano de voo oficial continha o nome de integrantes da família Bolsonaro.
O Ministério da Segurança da Argentina emitiu comunicado formal informando não haver qualquer registro oficial de ingresso do senador brasileiro em seu território.
Empresa sob investigação na Argentina
A aeronave envolvida no caso pertence à Baires Fly S.A., companhia cujo proprietário e presidente formal é o empresário Luis Grande. A Justiça e a polícia da Argentina, no entanto, investigam se a empresa estaria de fato sob o controle de Sergio Daniel Mastropietro.
Mastropietro é investigado no país vizinho por suposta participação em um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo irregularidades em contratos de medicamentos e equipamentos médicos na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS). A Baires Fly é a mesma companhia que transportou o presidente argentino Javier Milei em viagem aos Estados Unidos logo após sua posse.
Decisão judicial e retenção de documentos
A apuração sobre a movimentação transfronteiriça ocorre horas depois de o senador relatar ter sido abordado por agentes da Polícia Federal em Brasília. A pedido da própria PF, Alexandre de Moraes determinou a apreensão cautelar de seus passaportes no âmbito de um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, investigação que também mira o advogado Willer Tomaz, ligado ao parlamentar.
Como os documentos não foram entregues dentro do prazo fixado até a manhã desta terça-feira, a PF procedeu com o cancelamento administrativo dos passaportes e informou que enviará um ofício ao STF comunicando formalmente o descumprimento da ordem judicial por parte do parlamentar.
Flávio Bolsonaro, derrotado no segundo turno das eleições presidenciais por Luiz Inácio Lula da Silva, tem reiterado que não cometeu irregularidades, alegando ser alvo de perseguição política e intimidação.
O episódio ocorre em um momento de distanciamento diplomático entre Brasília e Buenos Aires: o governo de Javier Milei permanece como o único da América do Sul a não emitir manifestação ou reconhecimento formal sobre o resultado do pleito presidencial brasileiro.

