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Agronegócio representa 13% do eleitorado brasileiro e tem perfil majoritariamente conservador

Agronegócio representa 13% do eleitorado brasileiro e tem perfil majoritariamente conservador

O setor do agronegócio, responsável pela articulação da influente Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), detém um peso expressivo no cenário político nacional ao representar 13% dos votantes do país. De acordo com o levantamento Brasil no Espelho, coordenado pelo Instituto Quaest com mais de 10 mil participantes, o segmento fica atrás apenas dos conservadores cristãos, com 27%, e das classes D e E, que somam 23%. O índice supera em mais de duas vezes a parcela de empresários, que alcança 6%.

Além da força econômica demonstrada por 27% do PIB, o contingente eleitoral ajuda a fundamentar o alcance político construído nos últimos anos para impulsionar pautas, bloquear diretrizes estatais e alavancar candidaturas. Conforme avaliam cientistas políticos, a articulação por meio de entidades de classe faz com que o grupo possua capacidade de induzir transformações em políticas públicas para além da atividade de lobby.

Valores e identidade cultural do setor

Felipe Nunes, cientista político e CEO da Quaest, aponta que a pesquisa identifica uma comunidade unida por valores e por uma identidade ligada ao campo, abrangendo produtores, trabalhadores e cidadãos que se reconhecem nessa esfera cultural mesmo sem atuar diretamente na agricultura ou pecuária.

“Essa identidade amplia a capacidade de influência do setor para além das questões agrícolas. Quando a defesa da produção se associa a ideias sobre propriedade, família, religião e papel do Estado, ela passa a dialogar com outros segmentos da sociedade”, disse Nunes ao Estadão/Broadcast.

“Os 13% não constituem uma maioria, mas podem ser uma base relevante para formar maiorias em torno de determinadas agendas”, pontua Nunes.

O pesquisador recorda que a expansão ocorreu principalmente após o boom das commodities, concentrando-se nas regiões Centro-Oeste, Sul e no interior do Sudeste. Desse modo, o público costuma divergir dos centros urbanos, como na questão armamentista: 72% dos brasileiros rejeitam a flexibilização para posse de armas, enquanto no agro o índice recua para 60%.

Conservadorismo e conexão com pautas cristãs

No âmbito ideológico, 71% dos eleitores ligados ao agronegócio se declaram conservadores, ao passo que apenas 2% se definem como modernos ou progressistas, com outros 27% se classificando como moderados. O índice de tradicionalismo e conservadorismo do setor só fica abaixo do segmento de extrema direita, onde a totalidade dos entrevistados se identifica dessa forma.

O perfil apresenta proximidade com os conservadores cristãos. Entre os ouvidos do agro, 36% frequentam cultos ou missas semanalmente e 97% afirmam que Deus possui grande importância em suas vidas.

As pautas compartilhadas englobam a oposição à legalização da maconha, defendida por 74%, a concordância de que o homem deve ser o provedor do lar, também com 74%, e o apoio à prisão para mulheres que realizarem aborto, índice de 60%. Além disso, 69% acreditam que o governo deveria elevar impostos de todos para auxiliar os pobres, 74% avaliam que programas estatais estimulam o desinteresse pelo trabalho, e 52% defendem a privatização de empresas públicas, enquanto 88% demonstram satisfação com a democracia.

Para Nunes, essa convergência facilita alianças políticas.

“A importância da família, da religião, da autoridade e da preservação das tradições cria pontos de contato entre esses segmentos. Isso favorece candidatos que conseguem apresentar a defesa do agro como parte de uma defesa mais ampla de determinado modo de vida. Essa proximidade ajuda a entender porque o voto de parte do agro permanece alinhado à direita mesmo quando há benefícios econômicos oferecidos por um governo de esquerda”, explicou Nunes.

O CEO da Quaest destaca que a pauta moral e a econômica se cruzam para esse eleitorado, impedindo análises isoladas.

“A defesa da propriedade, a liberdade para produzir e a valorização do trabalho podem fazer parte da mesma visão de mundo que orienta suas posições sobre família e religião”, comentou.

Dessa forma, vantagens financeiras concedidas por gestões federais não garantem automaticamente o respaldo nas urnas.

“Medidas favoráveis ao setor podem ser reconhecidas sem que esse reconhecimento se converta em apoio eleitoral. É possível considerar uma política de crédito positiva e continuar rejeitando o projeto político do governo. Negociar com um governo e se identificar com ele são coisas diferentes”, pontuou.

Comportamento eleitoral em 2022 e perspectivas futuras

Na disputa presidencial de 2022, o agronegócio manifestou forte apoio à tentativa de reeleição de Jair Bolsonaro (PL), com endosso público de entidades, parlamentares e empresários. A pesquisa mostra que 27% votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. Nos anos seguintes do terceiro mandato petista, o campo acumulou atritos com o Palácio do Planalto, consolidando-se como forte opositor da administração federal.

Nunes projeta a permanência dessa resistência, impulsionada por fatores que transcendem a política agrícola.

“Existe uma identificação com a direita e uma rejeição ao PT que envolvem valores, pertencimento e visão de mundo. O eleitor também procura alguém em quem reconheça seus valores”, observou.

Contudo, o analista ressalta que o cenário pode variar conforme as candidaturas e a economia, embora Lula encontre barreiras difíceis de transpor apenas com indicadores econômicos.

“Candidaturas, campanha e condições econômicas podem produzir mudanças, mas Lula enfrenta nesse segmento uma barreira que dificilmente será superada apenas com a apresentação de resultados econômicos. Ele precisa enfrentar também a percepção de que seu campo político está distante da identidade dessas pessoas”, avaliou o CEO da Quaest.

Para Nunes, Bolsonaro uniu interesses econômicos a uma identidade política nítida.

“A defesa do agro passou a se conectar de forma mais intensa ao conservadorismo e ao antipetismo. O pragmatismo nas relações com o Estado continua possível, mas passou a conviver com vínculos políticos e afetivos que tornam a mudança de voto mais difícil”, analisou.

O cientista político e docente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Daniel Miranda, corrobora a análise e projeta a continuidade do alinhamento do setor com o senador Flávio Bolsonaro (PL) na próxima eleição, ainda que de forma menos explícita.

“Por um lado, o argumento de apoiadores de Lula é que o agro cresceu mais no governo Lula do que nos outros governos e que deveria haver inclinação do agro ao PT. Mas o agronegócio tem relativa autonomia política do ponto de vista econômico, porque sabe que vive sem dependência do governo e sim é mais dependente da política do governo chinês e do Oriente Médio, seus importadores”, explicou ao Estadão/Broadcast.

Miranda aponta que a pauta ambiental costuma estar associada aos partidos de esquerda, enquanto o bolsonarismo adota um tom contrário a essas diretrizes.

“É também indissociável à associação histórica do PT com o MST, um adversário paradigmático do agronegócio, enquanto a simbologia do discurso bolsonarista é pautada pela defesa da propriedade privada”, mencionou o cientista político.

O professor destaca ainda que a defesa do mérito, do empreendedorismo e da ordem pública reforçam a inclinação do segmento ao campo conservador.

Por fim, o pesquisador da UFMS pontua que a influência do setor ultrapassa o limite estatístico de 13% da sociedade.

“É um setor organizado em sindicatos, associações, cooperativas, com maior capacidade de organização que movimentos como os dos trabalhadores sem terra, indígenas e ambientalistas”, ponderou Miranda.

Segundo ele, a partir de 2018, com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, ocorreu o “naufrágio do discurso pragmático” do agronegócio, abrindo espaço para a livre expressão de pautas conservadoras por parte das lideranças do setor.

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